FILOSOFIA

A Preguiça

Não se sabe se no globo terrestre existe algum ser humano tão forte, tão virtuoso, que já tenha podido eximir-se a este terrível pecado — a preguiça. Socialmente é um mal tão enraizado, uma epidemia imanente de defeitos tão corrosivos e a que todos estamos sujeitos, que não se sabe muito bem se alguém lhe escapa, por maiores e melhores esforços feitos para esse fim. Parece, infelizmente, haver sempre um ou outro momento em que o homem lhe presta o seu tributo e é atacado sem remissão.

O tédio entrou no mundo pela mão da preguiça — escreveu La Bruyère. E como o tédio e ela são hoje um mal geral, uma doença epidémica dos mais desastrosos efeitos, a razão por que se mantém a dúvida de haver efectivamente algum ser que ainda não tenha sido escravizado ao seu domínio. Há um provérbio chinês que bem define a preguiça: “Mais tempo gasta um preguiçoso a abrir os olhos, do que um cavaleiro a andar uma légua”. Também subsiste um outro mal inerente a este “pecado”: a ignorância. E, quando os dois juntos, ligados, de mãos dadas, caminham a par, são a causa do atraso moral e intelectual dos povos, pois estão sempre em completa oposição ao trabalho e ao talento, alavancas do progresso. Como a guerra, de que António Vieira dizia ser “um monstro que tudo come e consome”, assim podemos dizer a preguiça um estafermo cruel e insaciável, que insensivelmente devora todas as virtudes, boas acções e brios, colocando a pessoa num estado deprimente, lançando-a num abismo de indiferenças donde jamais sairá, tornando-o um ser inútil para si e para os outros. A preguiça é a mãe dos ócios. E como bem alguém disse algures, os ociosos são como os relógios sem corda: quer trabalhem, quer estejam avariados, são sempre umas inutilidades.

Pior do que todos os outros “pecados” embora nenhum deles tenham desculpa, a preguiça condensa-os a todos; e é por isso, talvez, que ela com tanta facilidade tomou conta dos seres e se mantém com assombrosa vitalidade, sendo poucos, muito poucos mesmo, os que têm conseguido aniquilar essa pavorosa epidemia, sarando-se e imunizando-se logo às suas primeiras manifestações. Montalvo, conhecido poeta espanhol do século XV, definiu a preguiça desta forma: “Serpente é a soberba, serpente é a avareza, serpente é a luxúria, serpente é a ira, serpente é a gula; serpente é a inveja; a preguiça, porém, não é serpente, porque não fere como a áspide, mas é o animal imundo que dorme no lodo um sono perpétuo”.

Guerra à preguiça! Que o conhecimento seja o remédio a aplicar por quantos tocados possam ser pela preguiça, ou sintam disposição para a ociosidade. A alegria que acompanha o trabalho, faz esquecer a fadiga. Guerra Junqueiro disse: “O trabalho nasce espontaneamente da alegria, como um fruto nasce espontaneamente duma flor”.

N.


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