EDITORIAL

Firmeza

Para que germine a semente prodigiosa do querer, temos de repassá-la dum sentimento criador: a firmeza.

Eis por que, sem esse bordão seguro, a humanidade caminha vacilante no meio da confusão em que se vive.

Em tudo se faz sentir a sua falta, desde os mais insignificantes pormenores de todos os dias, às mais graves situações das nossas vidas, mormente nas convicções políticas e religiosas em que se adora hoje o que se repudiava ontem, odiando-se amanhã o que se exalta hoje, não porque se obedeça à voz da razão, mas por mero interesse material ou por lamentável inconsciência.

A firmeza duma convicção só pode existir quando a tenhamos submetido à prova do nosso raciocínio. Deve ser ele a potente alavanca com que devemos erguer-nos na ânsia da verdade que queremos conhecer. E, nos momentos de cogitação, diz-nos ele — o raciocínio, que em cada degrau que subimos na escala do conhecimento, essa ânsia é cada vez maior e cada vez mais forte, é a certeza de que o nosso trabalho de descoberta é eterno, como eterna é a verdade que descobrimos. E se é assim eterno, ilimitado, o conhecimento da vida, a razão mostra que as conclusões a que dia a dia chegamos não podem tomar-se como definitivas e — vamos mais longe — que a nossa fé não é imutável. Ela vai-se modificando à medida que o nosso espírito se liberta de teias, se desanuvia e aceita conscientemente o que até aí a compreensão não podia abranger. De modo algum essas modificações traduzem falta de firmeza, mas antes um sintoma de evolução, porque a elas presidiu o grande, o único seleccionador — o raciocínio.

Há tempos encontrámos perdida numa página dum livro de ciência esta frase que é bem um grito de alma de quem soube perscrutar a alma humana, de quem sofreu as consequências da fraqueza dos seus semelhantes.

Firmava-a um nome: Nietzche, e traduz-se assim:

"Há uma só coisa que possa demonstrar se um homem tem ou não tem valor: é a firmeza".

De facto, o ser que não se firma, não vive. Caminha de confusão em confusão, complicando a vida que não compreende. Não procura a base de nada, ou porque tem medo ou porque obedece à ideia falsa de que tudo lhe é vedado. Não sabe pensar, porque se instala comodamente na maneira de ver dos outros, esperando, por ociosidade ou por cobardia, que eles urdam a teia das suas opiniões, confeccionem o figurino das suas atitudes. E as suas convicções são efémeras como as folhas de Outono que voejam à mercê do vento que sopra.

Ai de nós se não nos firmamos!

F.R.P.


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